Arquivo do mês: fevereiro 2010

O terceiro molar superior esquerdo e a ordem de despejo

“Coma KantKant, a bala que faz você dançar!”, e então uma personagem criada para persuadir os infantes dançava na tela do aparelho iluminada por luzes multicoloridas. Era com uma dança apelativa que a publicidade televisiva conquistava a garotada, que torrava a grana da semanada com KantKant. Sem dó, ainda brindavam os clientes com figurinhas auto-adesivas de tatuagens muito tentadoras.

Foi numa dessas idas à doceria que o terceiro molar de Astolfo conheceu a safada que arruinou a sua vida: uma larva viciada em bactérias que descobriu no dente do menino um cardápio das mais variadas espécies de parasitas de dentes, e lá se instalou e cavou a fossa na vida do pobre hósteo-ser vivo.

O terceiro molar, também conhecido como o dente do siso, o dente do juízo, era o dente mais colossal de astolfo, e já estava bem grandinho quando começou a funcionar como resort de parasitas. De cor levemente amarelada, por não ser muito facilmente alcançado na escovação diária, prendia-se ao maxilar do menino com uma raiz que atingia quase um centímetro inteiro.

A larva cresceu e, em pouco tempo, dominou toda a câmara que cavara no terceiro molar de Astolfo. E o resort dentário do ser esguio durou longos três anos. Foi neste terceiro ano que Astolfo começou a se sentir desconfortável ao mastigar doces. E depois frios. E depois quentes. E depois sólidos. E depois tudo. Ir ao dentista era a única solução.

Ao contrário da grande maioria das pessoas, Astolfo não se importava muito em ir ou não ao dentista. Não tremia de medo ao ver o bisturi, mas também nunca havia tido problema algum com seus dentes e, talvez por isso, acreditava possuir uma proteção sobrehumana em sua arcada dentária. Foi chamado para entrar no consultório, deixou o gibi da mônica de volta na mesinha da sala de espera, e entrou calmamente na sala. Espreguiçou-se na cadeira, e abriu o bocão.

Cutuca, cutuca, e nada. Até os 45 do primeiro tempo, o doutor revirou os dentes de Astolfo, mas ainda orgulhava-se de encontrar apenas umas placas de fácil remoção. O que não esperava, porém, era que, ao cutucar com o bisturi, olhando através do espelho, ouviria um som oco que saía do dente do siso do garoto, e notou uma porta de madeira com os dizeres “Lar, doce lar”. Assustou-se, a princípio, mas logo resolveu pregar uma peça no habitante daquele dente.

Tocou a campainha e, assim que o bichinho saiu para ver quem era, puxou a maçaneta da porta, que trancava sozinha por dentro e trancou a larva para fora. Construiu um muro de resina na frente da porta, e depois, com uma pinça, foi fácil despejá-la no tobogã de metal onde Astolfo cuspiu um pouco de sangue. A obra durou cerca de uma hora e meia, e depois de se livrar do verme indesejado, ainda arrombou a porta dos fundos e assaltou toda a dispensa, retirando todas as guloseimas. Astolfo ficou com a arcada deslocada por três meses, tamanha a força que o médico batera as portas. Toda vez que bocejava, sentia um leve deslocamento, até esquecer-se completamente do episódio.

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Astolfo – A pré-história de Astolfo

Em um livro, antes de uma história, há o prólogo. Na vida de Astolfo não foi diferente. Chamemos isso de “A pré-história de Astolfo”. Ao contrário do lugar comum, batizado por muitos de óvulo, Astolfo nasceu de um ovo de gente. O processo foi o mesmo: trepadinha, fecundação, divisão das células, blábláblá. O problema é que ao invés de um útero quentinho, a senhora (que nunca foi mais que uma senhorita porque nunca se casou) botou um óvulo de carapaça muito rígida, que logo pensou ser um aborto. Mas não, era Astolfo fantasiado de girino enclausurado.

Astolfo nascia dois meses após sua fecundação, prematuro, pois fora chocado por um forno de pizza que lhe servira de refúgio durante toda a sua formação. Ou deveria dizer deformação. O primeiro “clack” estalou, o pizzaiolo pensou que era algum pedaço de bambu no feixe de lenha, e da primeira rachadura escapou um dedo.

Era um dedo grotesco, de unhas mal feitas, que já parecia nascido adulto. As cartilagens que dividiam as falanges eram ligeiramente mais largas que o próprio dedo, e a textura da pele grossa e carrancuda protegia Astolfo do calor do forno de pizza. E foi o dedo que salvou a vida de Astolfo. O peso desequilibrou o ovo, que rolou pelo balcão e caiu em uma bolsa de uma senhora que odiava pizzas, mas fazia seu papel de mulher submissa – ou compreensiva – acompanhando o marido na empreitada.

E foi lá que Astolfo passou os primeiros meses de sua vida, comendo farelos de Club Social, alguns chicletes ( o que explica muitas cáries logo cedo), e tomando caldinho de Babaloo encostado em uma carteira de couro. Ô vida boa!