Astolfo – A testa, a festa, a fresta e a imodesta. O que resta?

Era em sua testa que, ao se observar no espelho enquanto viajava na maionese, conseguia ver as roldanas e correias de sua mente funcionando. Por vezes, ouvia ruídos que justificava como falta de lubrificação, mas que era, na verdade, falta de cotonete combinado à alguma mudança de pressão atmosférica. Um rapaz muito imaginativo. Cada um com sua criatividade, mas Astolfo era surreal.

Foi convidado para uma festa. Para a infelicidade do rapaz, não era um churrasco, o que impediria sua visibilidade perante o público feminino – que conseguia por meio das caipirinhas. Seus drinks não serviriam de paleativos para nenhum final feliz na noite.

Astolfo adorava fofoca, até porque crê piamente que é um agente passivo dos burburinhos. Não muda o destino de ninguém, não conta para ninguém, e nem tem muitos amigos. Nem o nome da aniversariante sabia (sim, era aniversário de menina, e estava infestado de soutiens preenchidos com meias), mas um amigo bem relacionado arranjara uma porta dos fundos que estava mais para janela. Pularam para dentro de um quarto, Astolfo entrou, perdeu-se em meio ao gelo seco, às luzes neon, negra, purpurina, tossiu, andou, bizoiou, não achou nada interessante, sentou num sofá vermelho de couro meio rasgadinho nos braços. Sentou nos braços, porque no resto um garoto se debruçava sobre uma convidada para tirar um cisco do olho.

Passou um tempo: quinze minutos. A noite na mesmice, como naqueles desenhos dos Flintstones, quando o Fred corre descalço em seu automóvel e o fundo fica se repetindo por trás. As danças eram as mesmas, os ritmos também, a música uma bosta, e resolveu ir pegar algo para beber. Agarrou sua mal-preparada vodka com coca-cola, virou, e voltou para o sofá com a segunda dose. Olhou à sua esquerda e reparou que através de uma fresta razoável formada por duas lycras estendidas do chão ao teto era possível ver algo. O foco de sua visão mudou rapidamente e alcançou outro plano do cenário, reparando uma menina caminhando em sua direção, surgindo do gelo seco, iluminada pelos lasers e com um sorriso que mais parecia um chute no peito. Travou.

Um rapaz que havia sentado ao seu lado um minuto antes também havia comtemplado a cena. Abraçou Astolfo com um braço só, e cochichou gritando:

-Mas que falta de modéstia essa aí, hein!

Astolfo não disse nada. Era incapaz. Removeu o braço do garoto com nenhuma cautela, e continuou a reparar. Não deveria ter feito isso. O garoto levantou, andou em direção à garota, e pôs-se a conversar com ela com uma naturalidade fraternal. Astolfo o odiou por um minuto, e depois por vinte, vinte e cinco, até que aconteceu o beijo, tão imodesto quanto a garota.

Levantou e foi ao banheiro, dominado por todos os pecados capitais com excessão da fome, que deixara no vaso sanitário em forma líquida. Após lavar o rosto, reparou sua testa no espelho. Rugas bem finas e delineadas impediam suas sobrancelhas de se unir. E então Astolfo, viajando, teve uma visão.

Era como uma história do Piteco do Maurício de Souza, onde dois lobos das cavernas perseguindo a versão “bonequinho de palitinho” do camarada do beijo imodesto atuavam em sua fronte. Durou alguns segundos, até ele constatar que não passava de um reflexo da ilustração da camiseta de um outro mijão que passava. O vidro duplo do espelho criara dois reflexos, mas Astolfo acreditou em milagres do mal por dois segundos e levou isso a sério, como um “sinal”.

Anúncios

Uma resposta para “Astolfo – A testa, a festa, a fresta e a imodesta. O que resta?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s