Astolfo – O olho esquerdo e as remelas de sal grosso vegetarianas

Ao som de Sivuca, Tristezas de um violão, choro antigo e de melancolia intrínseca nas notas da melodia, conto agora o que será talvez o trecho mais expressivo de nosso querido personagem Astolfo. Primeiramente, peço desculpas pela longa ausência, e poderia listar muitos motivos convincentes para justificar cada dia e hora que não vos pude contemplar com uma característica do nosso já amado personagem, mas não o farei porque não quero. Agora devo informá-los que aquela música triste acabou e começou uma série de outras muito alegres, portanto escreverei sem toda a melancolia que eu queria.

Astolfo dorme, sonha, suas pálpebras tremem a cada vinte segundos, simbolizando cada novo sonho e/ou pesadelo que tem durante aquela noite. Fechado, seu olho esquerdo é levemente inchado, com a pálpebra não muito enrugada, cílios curtos na parte de baixo e muito longos na parte de cima, tanto que até cobrem os de baixo. Pareciam penteados e aparados constantemente, tamanha a simetria e comprimento deles. No canto próximo ao nariz, era possível ver a remelinha ressecada de uma longa noite de sono, aquela que quando é lavada no banheiro até arranha o nariz. Parecem uma pedrinha de sal grosso vegetariana que foi se esconder das mãos de um churrasqueiro maníaco que estava louco para esfregá-la em uma peça de alcatra com suas irmãzinhas – as outras pedrinhas de sal grosso. Uma observação curiosa é que, para remover cada remela ao acordar, quando se lembra de fazê-lo, Astolfo só usa a mão esquerda, se julga descordenado demais para fazer tal trabalho com sua mão menos habilidosa, talvez com medo de se cegar.

O abrir dos olhos de Astolfo é repentino. Assim, abre tudo de uma vez, vê tudo embassado, aí se incomoda com a claridade, e volta a fechar. Inevitavelmente, volta a dormir e se atrasa, e acaba acordando com o despertador reserva do celular, que apita dez minutos depois do oficial. Uma época ele chegou a programar o despertador e jogar o celular longe para que fosse obrigado a se levantar para desligar o barulhinho irritante, mas uma vez o celular caiu escada abaixo e quebrou, e então voltou a usar o esquema dos dez minutos.

Enfim, abre os olhos, mas falaremos só do esquerdo, e usaremos o direito para descrever outro episódio da rotina do nosso protagonista. Este, quando aberto, já começa a ordenar uma redução de pupila, devido à luz que assola a sua superfície, e ela obedece. Diminui até que pode-se ver finalmente a cor de sua córnea, coroando a pupila negra com rajados de castanho escuro esverdeados que se iniciam concêntricos à pupila até a periferia do olho. Nas bordas, é possível reparar em uma fina linha similar àquela tensão superficial da água que todos aprendemos na aula de química do colégio, dando a ilusão que o olho está voando naquele céu branco repleto de raios vermelhos. As bordas das pálpebras, quando abertas, são gordinhas, para sustentar aquela base cheia de sebo de cada longo cílio superior. Astolfo gosta muito de seus olhos, mas ninguém repara neles como ele gostaria.

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