Era canhoto da cintura para cima, e por existir confinado à desabilidade motora no nos membros inferiores esquerdos, não cultivava muitas histórias referentes a este lado menos utilizado. Não havia se quebrado, não havia sido roída, só algumas escoriações que serão exemplificadas mais a frente, e Astolfo pouco se lixava.
Era simplesmente uma unha comum, sem maiores deformidades, a não ser pelo declive – batizado pelo próprio de “complexo de planeta Terra na era medieval” – que fazia com que parecesse que um micróbio despencaria de um precipício caso “navegasse” até as suas fronteiras. Rosada, com manchinhas brancas que lembravam marolas e, segundo sua avó, realizariam seus desejos quando chegassem ao final de seu curso, a unha realmente, em um microscópio, lembrava um oceano.
Ele tinha algo de bravio, de falta de paciência. Toda vez que se acocorunhava para cortar suas unhas, fazia de um jeito para se ver livre daquela tarefa o mais breve possível. Por conta disso, vez ou outra, levava nas cutículas deformidades oriundas das lâminas afiadas de sua tesourinha de bico curvo. Astolfo não gostava de amolar a tesoura, muito embora o afiador de facas passasse todas as semanas em sua rua apitando sua gaita de brinquedo, como fazem alguns vendedores de bijú. Não adiantava: Astolfo sempre dispensava sua tesourinha no lixo comum do banheiro – ele não reciclava nada -, calçava os sapatos, abotoava qualquer coisa com botões que lhe vinha às mãos no armário e caminhava setenta e oito passos até a banca de jornal da esquina para comprar outra tesourinha de bico curvo.
Possuía uma fidelidade especial à marca Mundial, pois era a que sua mãe usava para cortar suas unhas quando era menino. E voltava indiferente à sua casa, olhando para o chão para não pisar nas cacas dos muitos cachorros de sua rua, com uma alça plástica na mão esquerda que sacolejava no ritmo de seus passos destros. Só notava que precisava de outra quando se punha a cortar a tal unha e sentia um beliscão.
Guardava a tesourinha no armário de três portas que se escondia por detrás do espelho, acima da pia, especificamente na porta da esquerda, dentro de um copinho plástico azul claro com alguns dizeres sobre um número de algum político. Era raro Astolfo notar a existência da unha de seu dedão do pé esquerdo no dia-a-dia. Reservava a ela uma especial indiferença, como se apará-la não fosse mais que sua obrigação.