Você aqui

Nós aqui do CONTANDO ALGUÉM desafiamos (no bom sentido, é claro) você, leitor, a criar uma personagem que tenha consciência das suas atitudes e a descrevê-lo de forma minuciosa e caprichada. É um ótimo exercício para o cérebro, uma excelente prática para quem não tem mais o que fazer, e ainda é possível que o seu personagem faça parte do CONTANDO ALGUÉM na seção de leitores. Quem se habilita?

Para participar, basta fazer o seu personagem e enviar o texto para nosso redator Gustavo Angimahtz (gusampaio@gmail.com) que, junto com o Arthur d’Araujo, irão escolher os mais legais para fazerem parte da infinita família chamada Imaginação.

Neste espaço serão postadas as criações de personagens dos leitores do CONTANDO ALGUÉM. Afinal de contas, que ao menos esse projeto possa inspirar outras mentes e exercitar outros cérebros. Divirtam-se!

O colecionador de saudades
(Por Mariana Portela em 04/02/2010)

Eu gostava mesmo de escrever em terceira pessoa. No entanto, tentei e foi um bocado frustrante. Acho que ainda trago a própria vida embutida no coração do pensamento. E isso passará, com o rebentar dos anos.

Chamava-me Manuel Leite de Barros. Tenho vinte e dois anos e decidi dar um fim a mim mesmo. E não, não cometerei suicídio. A morte não tocará meu corpo, embora eu vá matar a mim durante essas páginas. Porque estou farto de ser eu.

Desde miúdo sinto-me um estranho em casa. É tradição em minha família colecionar. Meu pai possui uma coleção de bulas de remédios. Obviamente, trata-se de um inveterado hipocondríaco. Ele cataloga todas as descrições medicamentosas em ordem alfabética, dividindo-as em doenças. E orgulha-se imenso de ter mais de dois mil papéis ordenados em uma pasta castanha.

Minha mãe desde sempre foi apaixonada por corujas. Para ela, mais que símbolo do saber, as corujas são as grandes amantes da noite. “Com certeza a sabedoria acontece na escuridão”, diz-me repetidas vezes. Hoje, sua coleção já transborda doze estantes e ultrapassa quinhentas réplicas de todos os formatos, regiões e cores.

Até mesmo uma prima minha que mora no Brasil é viciada em coleções. Ela armazena todas as palavras bonitas que lê nos jornais. Por dia são escritas em seu caderno cerca de cento e doze novas aquisições.

Duvidei de meus laços sanguíneos até amar pela única vez. Uma profética festa de Santo Antônio, no dia 12 de junho de 2003. Antes disso, não havia colecionado absolutamente nada.

Eu me encontrava ao pé do Beco do Vigário, em Alfama. A lua estava cheia e a embriaguez já começava a me cobrir de sorrisos tolos. Foi ali que avistei Carminho.

Maria do Carmo Pereira tinha acabado de completar seus dezenove anos. Era irmã de um conhecido meu. Eu havia sido apresentado a ela quando éramos crianças. Passamos dez anos sem nos cruzar – mesmo sendo Lisboa uma cidade minúscula.

O velho clichê do amor instantâneo fez de mim sua vítima. Passamos a madrugada toda a conversar. Acolhidos pelo miradouro secreto, atrás da igreja de Santo Estevão. Só nos permitimos partir quando a manhã nasceu quente e o Tejo inundava-se em raios de ilusória pureza.

Foi assim que comecei a colecionar. A colecionar Carminho. Seus gestos, sua timidez. Cada partícula de sua alma. Apreendi sessenta e três olhares, cento e quarenta e sete sorrisos, vinte e seis jeitos dela prender os cabelos e duzentos e oito beijos. Superando toda e qualquer dicotomia sujeito-objeto, eu era capaz de colar minha visão ao seu rosto. Um ser indissolúvel, apartado em dois corpos.

Nada necessitava de catálogo. Ficava tudo cravado em minha memória. Nas horas em que não a via, brincava de contar minha suntuosa coleção. Ao final, sentia-me verdadeiramente um Leite de Barros.

Contudo, nossa relação teve um prematuro fim. No dia 14 de julho de 2004, ao sair apressada da Estação Cais do Sodré para me encontrar, Carminho foi atropelada por um elétrico. Seus ossos frágeis não resistiram às feridas e, algum tempo depois, ela faleceu no hospital.

Eu não me conformei com a perda. E, para não deixá-la morrer em mim, passei a colecionar saudades. Todos os dias, religiosamente, dava corda nos seus beijos, nos seus olhares, nos seus cabelos.

Algumas semanas após o seu enterro, decidi deixar Lisboa e a minha família. “Porque me sabia bem sentir saudades deles todos”. O afastamento seria imprescindível para aumentar minha coleção.

Pedi transferência do meu estágio para Viseu, onde meus pais tinham uma propriedade vazia. Por longos seis meses, pude beber da minha nostalgia. Enxertava a pele em fotográficos ensaios. Alimentava a melancolia com curtas metragens daqueles que eu amava. E todos os sofrimentos eram apaziguados.

Cometi, todavia, um erro fatal. Posicionei Chronos em cumplicidade. E ele é um assassino silencioso. Porque a saudade – ao contrário do que dizem os fadistas – é inimiga das horas. É brutalmente borrada no tempo.

Na manhã de hoje, fui incapaz de reviver um dos beijos de Carminho. Espremi os olhos e não o achei. Rebobinei-me todo e havia desaparecido. A sofreguidão em resgatá-lo deixou-me ainda mais confuso. Eu me traí, sepultando minha doce reminiscência. Agora, estou à deriva. Só enxergo nebulosas. Destroços. Lábios partidos ao meio.

Hoje fui deitado fora. Como me dói, meu Deus! Como me dói essa saudade que sinto das minhas saudades colecionadas! Antagônico, o esquecimento enjaula-me à lembrança. Ninguém ensinou a mim que as coleções devem ficar cobertas de pó. Encostadas em prateleiras. Presas em vidros de éter.

O amor não é encarcerado nem posto em conserva. Mesmo o maior dos amores pode nublar. Paulatinamente, por inércia, cautela em demasia ou escolha, todo amor é passível de fenecer. E a saudade, pela sutil vingança do tempo, não é colecionável.

Digo adeus a mim neste momento porque vou me mudar. Levo meu espírito para abrigar outra identidade. Crio um semi heterônimo. Sem passado algum. Colecionarei saudades de mim mesmo, enquanto me for permitido. Avisto virgens futuros para o meu efêmero ser. Se, por ironia, apagar também essa saudade, não há problema. Eu já não me serei.

Limbo, o colecionador
(Por Luciano Gomide em 17/03/2009)

Limbo e seus anões - desenho de Luciano Gomide

Desenho de Luciano Gomide

André ganha, todo ano, meias de sua mãe e de seu tio no natal. 19 anos ganhando meias, porém apenas seis pares das mesmas moram em sua gaveta. Roberta, 24 anos compra compulsoriamente prendedores de cabelo desde pequena -  dos pretos metálicos aos coloridos chamativos de elástico. Sem nunca ter se desfeito de nenhum, porém, em sua caixa decorada de papelão moram apenas 14 prendedores de cabelo.
Assim acontece com os guarda-chuvas e os isqueiros de Celso, as canetas Bic e borrachas de Juliana, alguns óculos, os clips dos escritórios. No Brasil, em Londres, na Austrália, bilhões de pessoas normais pelo mundo são colecionadoras de objetos, porém nenhuma com uma coleção de fato.

Limbo também parecia um cara normal. Nasceu há incontáveis anos, tempo suficiente para cultivar sua longa e intimidadora barba grisalha. Desde menino foi desenvolvendo sua mania de coleção, desde os carrinhos às pontas de lápis que usava na escola, passando pelos chaveiros e revistas de mulheres na adolescência. Sua mãe reclamava, mas começou a perceber que o garoto levava tudo isso realmente a sério. “Pode ficar rico assim” ela pensava… Quem sabe colecionando coisas de valor ele  conseguisse levar a vida com isso.

Os anos passaram, deixando o garoto órfão antes mesmo de virar adulto. Mesmo sendo uma pessoa extremamente sociável e popular à primeira vista, Limbo acabara ficando sem amigos e solitário em sua vida. Magro e alto, assusta pelas articulações saltadas entre os ossos quase aparentes, pelados por não haver pêlos por todo o corpo. Sua barba, até o umbigo, não é lavada diariamente, e muito menos possui um aspecto atraente aos próximos. Tudo bem, pois não precisa de uma aparência típica urbana para se sustentar.

Logo após perder sua mãe, iniciara uma carreira invejável de muito poder a partir de suas coleções. Os quartos de sua casa vazia acabaram se completando em pouco tempo com objetos dos mais variados usos e procedências, nada era jogado fora. Tudo se guardava, seja dele, seja dos outros. Limbo não os utilizava, só guardava. Não limpava, não organizava. Seu poder maior era adquirí-los.

Sua história passa a ter ligação com a de Beatriz, a de Celso, a de Juliana, e a do resto do mundo quando junta-se ao “Mouviment d’Emancipation de Nains de Jardin” (MENJ) – movimento francês de libertação dos anões de jardim. Sim, isto existe em todo o mundo.
Sr. Limbo, financiado por empresas, atualmente gerencia milhares desses anões, cuja função é movimentar o máximo de informações e objetos de nosso mundo para seu acervo. Isso movimenta o capitalismo. Quantas borrachas já terminaram em sua mão? Quantas vezes já presenciou uma caneta sem tinta por tanto uso? Para onde vão as meias sem par? Sim, estas coisas somem. Não se vê estas coisas acabando. Elas somem. Vão para o Limbo. Os isqueiros, clips, lixas de unha… Tudo some.

Lembre-se da chave do carro deixada em cima da mesa? Você tinha certeza que deixou ali, mas quando foi pegá-la, cadê? 20 minutos procurando e, quando percebe, ela está onde deixou, na mesa. Exatamente ali, intocada. Aquela camiseta demais que usava nos finais de semana há anos atrás, que você só lembra pelas fotos: onde está ela hoje? Prazer, Limbo. Os CDs que tinha anos atrás e não deu para ninguém? Prazer, Limbo. Guarda e mexe em tudo. Não usa, fique calmo. Não quebra, não suja, não limpa, não transforma. Só guarda.

7 respostas para Você aqui

  1. Meu Lú, amei seu texto .. muito bom mesmo e é a mais pura realidade….
    continue escrevendo assim que vc irá longe… Bjks

  2. Ótima – Sr. Poeta Urbano.
    Espero mais…

  3. Sensacional! Mas, e aquelas pessoas que a gente não fala há anos, que o contato sumiu da agenda e ninguém mais sabe delas….será que elas também vão para o Limbo? Talvez heim!
    Parabéns!

  4. adorei Lu!!!!!! Vc sempre supreendendo….
    beijos

  5. O limbo me ligou e falou que o foco dele essa semana são os carregadores de celular originais (ele nao curte nada made in china). Cuidado.

  6. Oi Lú…
    Preciso fazer uma correção no seu texto. O Sr. Limbo (tive oportunidade de encontrá-lo várias vezes em minha vida) não tem visto de permanência em Londres. Se já não tinha antes, agora com esta crise tem menos ainda.
    Durante este tempo em que eu vivi por lá, fui obrigada a me mudar de casa cinco vezes (é difícil se relacionar por muito tempo com pessoas que você nunca viu na vida), o que me ensinou a manter-me distante do Limbo… eu só podia manter coisas que eu pudesse carregar sozinha, isto é, uma mala, uma mochila de alpinista, laptop, e roupas de cama… alguns outros artefatos de sobrevivência também, isto é, caso eu precisasse me mudar de casa, poderia fazê-lo em duas viagens… depois de dois anos e meio vivendo assim, me sinto quase um monge budista. Desde que cheguei de volta em casa, todo tempo livre que eu tenho uso para vasculhar meus armários e resgatar do Sr. Limbo tudo que ele escondeu por tantos anos….
    bjs!

  7. Olha…vou mandar a Irene pra vocês conhecerem tambem =)

    Gostei bastante do contandoalguem, não conhecia ainda… =)

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