“Coma KantKant, a bala que faz você dançar!”, e então uma personagem criada para persuadir os infantes dançava na tela do aparelho iluminada por luzes multicoloridas. Era com uma dança apelativa que a publicidade televisiva conquistava a garotada, que torrava a grana da semanada com KantKant. Sem dó, ainda brindavam os clientes com figurinhas auto-adesivas de tatuagens muito tentadoras.
Foi numa dessas idas à doceria que o terceiro molar de Astolfo conheceu a safada que arruinou a sua vida: uma larva viciada em bactérias que descobriu no dente do menino um cardápio das mais variadas espécies de parasitas de dentes, e lá se instalou e cavou a fossa na vida do pobre hósteo-ser vivo.
O terceiro molar, também conhecido como o dente do siso, o dente do juízo, era o dente mais colossal de astolfo, e já estava bem grandinho quando começou a funcionar como resort de parasitas. De cor levemente amarelada, por não ser muito facilmente alcançado na escovação diária, prendia-se ao maxilar do menino com uma raiz que atingia quase um centímetro inteiro.
A larva cresceu e, em pouco tempo, dominou toda a câmara que cavara no terceiro molar de Astolfo. E o resort dentário do ser esguio durou longos três anos. Foi neste terceiro ano que Astolfo começou a se sentir desconfortável ao mastigar doces. E depois frios. E depois quentes. E depois sólidos. E depois tudo. Ir ao dentista era a única solução.
Ao contrário da grande maioria das pessoas, Astolfo não se importava muito em ir ou não ao dentista. Não tremia de medo ao ver o bisturi, mas também nunca havia tido problema algum com seus dentes e, talvez por isso, acreditava possuir uma proteção sobrehumana em sua arcada dentária. Foi chamado para entrar no consultório, deixou o gibi da mônica de volta na mesinha da sala de espera, e entrou calmamente na sala. Espreguiçou-se na cadeira, e abriu o bocão.
Cutuca, cutuca, e nada. Até os 45 do primeiro tempo, o doutor revirou os dentes de Astolfo, mas ainda orgulhava-se de encontrar apenas umas placas de fácil remoção. O que não esperava, porém, era que, ao cutucar com o bisturi, olhando através do espelho, ouviria um som oco que saía do dente do siso do garoto, e notou uma porta de madeira com os dizeres “Lar, doce lar”. Assustou-se, a princípio, mas logo resolveu pregar uma peça no habitante daquele dente.
Tocou a campainha e, assim que o bichinho saiu para ver quem era, puxou a maçaneta da porta, que trancava sozinha por dentro e trancou a larva para fora. Construiu um muro de resina na frente da porta, e depois, com uma pinça, foi fácil despejá-la no tobogã de metal onde Astolfo cuspiu um pouco de sangue. A obra durou cerca de uma hora e meia, e depois de se livrar do verme indesejado, ainda arrombou a porta dos fundos e assaltou toda a dispensa, retirando todas as guloseimas. Astolfo ficou com a arcada deslocada por três meses, tamanha a força que o médico batera as portas. Toda vez que bocejava, sentia um leve deslocamento, até esquecer-se completamente do episódio.