A testa, a festa, a fresta e a imodesta. O que resta?

4 04UTC Junho 04UTC 2009

Ilustração de Arthur d'AraujoEra em sua testa que, ao se observar no espelho enquanto viajava na maionese, conseguia ver as roldanas e correias de sua mente rodando, por vezes soltando e quicando, fervilhando aquela nova idéia. Ora, pois, era sim um rapaz muito imaginativo. Mas afinal, que não é? Cada um na sua criatividade, mas Astolfo era de um jeito muito surreal.

Certa vez foi convidado para uma festa. Não era churraco e, portanto, a sua pouca visibilidade perante o público feminino que conseguia por meio das caipirinhas que fazia não serviriam de paleativos para nenhum final feliz na noite. Acontece que era uma festa de aniversário daquelas às quais deve-se comparecer, caso contrário, não poderia acompanhar nenhuma fofoca que viriam nos dias subsequentes. Astolfo adorava fofoca, até porque crê que era um agente passivo na fofoca. Não mudava o destino de ninguém, pois não contava para ninguém, e nem tinha muitos amigos.

Nem o nome da aniversariante (sim, era aniversário de menina, e estava infestado, para o ódio do danado) ele sabia direito, mas o seu amigo malandro arranjara uma maneira de entrar de penetra. Astolfo entrou, perdeu-se em meio ao gelo seco, às luzes neon, negra, purpurina, tossiu, andou, bizoiou, não achou nada interessante, sentou num sofá vermelho de couro meio rasgadinho nos braços. Sentou nos braços, porque no sofá estava rolando uma pegação de um casal cujo clima o rapaz se impediu de interromper.

Tudo certo, passaram-se quinze minutos, a noite continuava na mesma, como naqueles desenhos dos Flintstones, quando o Fred corre e o fundo fica se repetindo por trás. As danças eram as mesmas, os ritmos também, a música uma bosta, e resolveu ir pegar algo para beber. Agarrou sua mal-preparada vodka com coca-cola, virou, e voltou para o sofá com a segunda dose. Olhou à sua esquerda e reparou que através de duas lycras estendidas do chão ao teto, formava-se uma fresta razoável. O foco de sua visão mudou rapidamente e alcançou outro plano do cenário, reparando uma menina caminhando em sua direção, surgindo do gelo seco, iluminada pelos lasers e com um sorriso branco que ofuscou Astolfo por alguns segundos.

Um rapaz que havia sentado ao seu lado um minuto antes também havia comtemplado a cena. Abraçou Astolfo com um braço, e cochichou gritando:

-Mas que falta de modéstia essa aí, hein! – referindo-se à garota de beleza e charme incontestáveis.

Astolfo não disse nada. Era incapaz. Removeu o braço do garoto com nenhuma cautela, e continuou a reparar. Não deveria ter feito isso. O garoto levantou, andou em direção à garota, e pôs-se a conversar com ela com uma naturalidade fraternal. Astolfo o odiou por um minuto, e depois por vinte, vinte e cinco, até que aconteceu o beijo, tão imodesto, quanto a garota. Levantou e foi ao banheiro, e então aconteceu. Logo após lavar seu rosto, reparou em sua testa. Viu rugas bem finas e delineadas, viu como suas sombrancelhas não se juntavam, como alguns (poucos) fios de cabelo cobriam uns trechos de pele da testa e, de repente, podia ver claramente a imagem de uma versão Maurício de Souza de dois lobos das cavernas perseguindo a versão “bonequinho de palitinho” do camarada do beijo imodesto. Este, mesmo armado, não era páreo para os lobos.

Durou alguns segundos, até ele virar para trás e constatar que não passava de um reflexo da ilustração que existia na camiseta de outro frequentador do banheiro que mijava de costas para ele. O vidro duplo do espelho criara dois reflexos, mas Astolfo acreditou em milagres do mal por dois segundos.


O olho esquerdo e as remelas de sal grosso vegetarianas

8 08UTC Maio 08UTC 2009

Ilustração de Arthur d'AraujoAo som de Sivuca, Tristezas de um violão, choro antigo e de melancolia intrínseca nas notas da melodia, conto agora o que será talvez o trecho mais expressivo de nosso querido personagem Astolfo. Primeiramente, peço desculpas pela longa ausência, e poderia listar muitos motivos convincentes para justificar cada dia e hora que não vos pude contemplar com uma característica do nosso já amado personagem, mas não o farei porque não quero. Agora devo informá-los que aquela música triste acabou e começou uma série de outras muito alegres, portanto escreverei sem toda a melancolia que eu queria.

Astolfo dorme, sonha, suas pálpebras tremem a cada vinte segundos, simbolizando cada novo sonho e/ou pesadelo que tem durante aquela noite. Fechado, seu olho esquerdo é levemente inchado, com a pálpebra não muito enrugada, cílios curtos na parte de baixo e muito longos na parte de cima, tanto que até cobrem os de baixo. Pareciam penteados e aparados constantemente, tamanha a simetria e comprimento deles. No canto próximo ao nariz, era possível ver a remelinha ressecada de uma longa noite de sono, aquela que quando é lavada no banheiro até arranha o nariz. Parecem uma pedrinha de sal grosso vegetariana que foi se esconder das mãos de um churrasqueiro maníaco que estava louco para esfregá-la em uma peça de alcatra com suas irmãzinhas – as outras pedrinhas de sal grosso. Uma observação curiosa é que, para remover cada remela ao acordar, quando se lembra de fazê-lo, Astolfo só usa a mão esquerda, se julga descordenado demais para fazer tal trabalho com sua mão menos habilidosa, talvez com medo de se cegar.

O abrir dos olhos de Astolfo é repentino. Assim, abre tudo de uma vez, vê tudo embassado, aí se incomoda com a claridade, e volta a fechar. Inevitavelmente, volta a dormir e se atrasa, e acaba acordando com o despertador reserva do celular, que apita dez minutos depois do oficial. Uma época ele chegou a programar o despertador e jogar o celular longe para que fosse obrigado a se levantar para desligar o barulhinho irritante, mas uma vez o celular caiu escada abaixo e quebrou, e então voltou a usar o esquema dos dez minutos.

Enfim, abre os olhos, mas falaremos só do esquerdo, e usaremos o direito para descrever outro episódio da rotina do nosso protagonista. Este, quando aberto, já começa a ordenar uma redução de pupila, devido à luz que assola a sua superfície, e ela obedece. Diminui até que pode-se ver finalmente a cor de sua córnea, coroando a pupila negra com rajados de castanho escuro esverdeados que se iniciam concêntricos à pupila até a periferia do olho. Nas bordas, é possível reparar em uma fina linha similar àquela tensão superficial da água que todos aprendemos na aula de química do colégio, dando a ilusão que o olho está voando naquele céu branco repleto de raios vermelhos. As bordas das pálpebras, quando abertas, são gordinhas, para sustentar aquela base cheia de sebo de cada longo cílio superior. Astolfo gosta muito de seus olhos, mas ninguém repara neles como ele gostaria.


Joelho direito e o vício por Band-aid(inhos) importados

2 02UTC Abril 02UTC 2009
Ilustração de Arthur d'Araujo

Ilustração de Arthur d'Araujo

Um joelho não é uma forma definível, tampouco possui traços marcantes (com exceção de eventuais cicatrizes e pintas). Mas o joelho de Astolfo, o direito, possuía uma característica assaz individual, que só será revelada mais adiante. A região de seu joelho era um Grand Canyon, pois sua magreza atribuía à articulação um verdadeiro estudo de anatomia. Simples: em uma visão de 360 graus, constatava-se os mais diversos relevos e vegetações, sendo os primeiros relativos aos ossos saltados e as segundas relacionadas à má distribuição capilar, assim como em outras partes do corpo dele. Definitivamente Astolfo não possuía integridade no quesito “pelo” – que agora não possui mais acento circunflexo, segundo as novas regras gramaticais.

A rótula era em forma de pãozinho português, dos que compramos na padaria e passamos requeijão no café da manhã, e por trás era possível ver saltar os tendões se Astolfo decidisse dobrar parcialmente a perna. Esticada eles se estiravam e pareciam que iam romper. Tudo como qualquer joelho magro de qualquer cara esquelético que se analise, sem tirar nem por. Quando Astolfo tomava sol, de tão saltado o joelho, às vezes podia se reparar nas sombras que os ossinhos faziam sobre os outros. Se quisermos ir mais longe, ainda é possível imaginar essas formação ósseas menores dizendo às outras:

- Olha, o sol está se pondo lá detrás do Monte Rótula!

Se fossem uma tribo de pequenas formações ósseas, idolatrariam a Deusa Rótula do joelho de Astolfo, de tão grandiosa e majestosa.

O grande charme, se é que pode-se chamar vício de charme, estava justamente na mania que o Rapaz tinha de colocar Band-aids sempre no mesmo lugar, tanto que nem cresciam mais pelos por ali. Isso começou aos 18, quando ele machucou o joelho em uma festa de uma garota rica da faculdade que pagava pau pra ele. Apaixonada por Astolfo, fez de um corte de lata de cerveja um Deus-nos-acuda, e o levou para sua suíte, a fim de “cuidar” do machucado. Astolfo, tímido de todo, bem que tentou puxar a garota de volta para a churrasqueira (não havia churrasco, só cerveja e as famosas caipirinhas de Astolfo, que já estavam fazendo efeito na menina), mas sua rebeldia para com o sexo oposto foi em vão.

Subiram dois lances de escadas caracol e a garota mandou que o adolsecente/adulto sentasse em sua cama. Foi ao banheiro, tirou o O.B., pegou um vidro de Band-aids, e caminhou em direção ao que seria a primeira vez de ambos. Seu nome ficará em sigilo para não haver falsas referências, mas a garota se aproximou de Astolfo e, após passar Methiolate, grudou o mini-Band-aid importado que seu pai trouxera de uma viagem para a Noruega. Astolfo gozou. XXXXXX também gozou. O sangue do lençol misturava joelho, menstruação e vagina, mas para ela era só vagina, e para ele era só joelho. Convencidos do prazer, se encontraram mais algumas vezes, mas apareceu um cara novo na vida dela, e astolfo foi deixado pela primeira vez. Nunca mais deixou de substituir o mini-Band-aid importado.


O dedinho da mão direita e o batismo cítrico

1 01UTC Abril 01UTC 2009
Ilustração de Arthur d'Araujo

Ilustração de Arthur d'Araujo

De mãos alongadas, com palmas curtas e dedos compridos. O dedinho de sua mão direita reservava uma característica diferente dos outros. Na verdade, todos os dedos possuíam características muito peculiares, o que acabava por designar um título honorário a qualquer fotógrafo que resolvesse tirar fotos de cada um separadamente. Pareceria que cada dedo veio de uma pessoa diferente. O dedinho da mão direita, o único com a unha um pouco falha, e roída, possuía como exclusividade uma mancha escura de limão de seus áureos tempos de churrasqueiro, quando se comprometia a embriagar as menininhas nas festas com sua famosa caipirinha.
Uma de suas empreitadas como o homem da caipirinha, a famigerada, causadora da mancha, aconteceu num desses churrascos que não tem carne, só jovens e bebidas. Para variar, Astolfo ficou responsável pela caipirinha, e desatou a confeccionar seus drinques, um após o outro, quase sem descanso. Era um dia bastante ensolarado, e a festa estava bem cheia. Em virtude disso, trabalhou bastante, e experimentou quase todos os drinques que fez. Devido ao calor, às vezes dava até goles maiores, e então sejam bem vindos ao primeiro porre de Astolfo, aos 14 anos. Desmaiado na grama, com o dedinho sujo de limão, haveria de ganhar ali sua mal querida manchinha de limão.
A mancha começava no ossinho que ligava a palma da mão à falange e abraçava até quase a ponta. O mais curioso disso tudo é que apesar de ter sido causada involuntariamente, fazia parecer que três braços com luvas do Mickey estivessem realmente abraçando o dedo. As curvas lembravam aqueles dedos gordinhos do rato da voz fina.
O dorso de seu dedo possuía uns pelos finos e penteados, e a última articulação antes da unha era meio calejada, devido ao atrito desta parte com superfícies de toda espécie. Isso porque Astolfo possuía uma mania irritante de ficar roçando esse dedo em toda mesa que sentava, como um tique nervoso. Por vezes, trocava o atrito por mini batuquezinhos, incluindo o famoso “pam pararam pam, pam, pam”, só que sem ritmo algum.


Astolfo – O antebraço direito e a Nossa Senhora de Guadalupe

20 20UTC Março 20UTC 2009
Ilustração de Arthur d'Araujo

Ilustração de Arthur d'Araujo

Se definia próximo ao cotovelo, mas sem aquelas veias aparentes que causam furor em algumas menininhas e asco em tantas outras. Na realidade, havia uma só, aquela que fica próxima ao punho, e que trançava com o tendão, muitas vezes confundindo o próprio Astolfo, que apontava para um afirmando ser o outro. Pelos poucos, imitando os mamilos, que deixavam a parte mais branca do braço pelada, e contornavam um desenho que fizera ainda adolescente, quando conhecera uma pessoa muito especial. Perto da mão, era fino, e ia ganhando forma e força até chegar ao cotovelo. Ao contrário do que devam imaginar, Astolfo não era forte, e indícios de uma veia ou de um antebraço delineado não são sinais certos de um corpo todo torneado.

Aliás, esse foi um problema grande para o garoto Astolfo, nascido em berço de família, mas com uma infância cheia de “mal-me-queres” e tirações de sarro devido à sua dificuldade em lidar com as pessoas. Não que não fosse social, pelo contrário, Astolfo pecava pelo excesso. Qualquer assunto lhe era pertinente, e qualquer ação lhe remetia algo que poderia ser ornado com um comentário seu. O maior problema de todos eram esses: seus comentários. Não bastasse a “deficiência capilar mamilística” ou o “complexo de Planeta Terra na era medieval”, era praticamente um TOC inventar essas expressões chulas e sem-graça que o divertiam tanto e afastavam de sua vida possíveis amigos e amores.

Sem problemas. Houve um episódio em que, ainda na escola, Astolfo, que sentava na fileira do canto direito, quarta carteira, atrás de um dos meninos da “turma do mal” e na frente de outro que só dormia, foi vítima de história mal contada que traz marcas até hoje em sua vida. Literalmente. O tal do George, o garoto da terceira carteira, apareceu já atrasado para a primeira aula, de bermudas, com uma faixa cobrindo a panturrilha. A curiosidade do nosso personagem não permitiu que esperasse acabar a aula para que perguntasse o que havia ali debaixo das ataduras. George sentiu ali uma oportunidade de se vingar de algo que nem ele sabia o que era e resolveu pregar uma peça no pobre Astolfo.

Devagar, removeu a atadura por baixo  da cadeira, mantendo a cabeça virada para a lousa e fingindo prestar atenção na aula. Colocou a gaze embaixo da carteira, e esticou sua perna para trás sem movimentos bruscos, revelando sua panturrilha para que Astolfo, apenas com uma leve inclinação do tronco, pudesse ver a obra. Uma tatuagem de caveira de pirata, dessas com dois ossinhos atrás. Viu ali uma oportunidade de fazer um grande amigo, e o recreio dos dois garotos, agora, tinha propósito.

George contou sobre o processo de feitura da tatuagem, que seu amigo fizera, com tinta de caneta Bic. E convenceu o pobre Astolfo a fazer uma. No dia seguinte, trouxe uma enciclopédia, o livro número 12 da Larousse Cultural e, em uma única folheada, astolfo viu seu desenho no termo Guadalupe. Era uma imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, e ele nem quis saber o que significava. Limitou-se a apaixonar-se pelos traços da santa. Escolheu tatuar no antebraço, e três dias depois estava na casa do tal amigo de George, com o antebraço depilado, esperando o ingresso da tinta da caneta em seu corpo. Duas horas depois, lá estava o desenho, feio, parecendo tatuagem de cadeia, e George se tornou o primeiro amigo de Astolfo.


Astolfo – A baunilha do mamilo direito e as oralidades

17 17UTC Março 17UTC 2009
Ilustração de Arthur d'Araujo

Ilustração de Arthur d'Araujo

Não era exatamente um Austin Powers, mas os pelos de seu peito não curtiam muito os mamilos, e decidiram que este seria caçoado. ”Deficiência capilar mamilística” era como ele descrevia a sua baixa e desordenada densidade demográfica de cabelos no círculo rosado. Não é uma expressão engraçada, tampouco criativa, mas ele adorava. Vez ou outra, quando se apresentava para as pessoas em um churrasco com piscina, já usava o termo infame e forçava uma risadinha para que não o desapontassem. De fato, nunca o desapontaram, mas isso talvez o privou de algumas boas amizades.

Era rosado, sim, mas dependendo da luz podia parecer quase marrom, e a auréola não era exatamente angelical. Meio oval, meio desforme, com um bico bem mal resolvido, que lembrava a baunilha espiralada saindo pra fora de um sorvete de casquinha do Mc Donald´s. Esse era o mamilo direito de Astolfo, que não era exatamente igual ao outro, já que é muito raro achar simetria perfeita em qualquer ser humano que não seja Gisele Bundchen. Até porque ela nem deve ser humana, mas de outro planeta.

Na periferia escapavam alguns pequenos e longos pêlos pretos, um ou outro meio castanho, e uma pinta cerca de dois centímetros abaixo do mamilo dava a ele sua especificidade. Uma pinta discreta, marrom, de alto relevo, mas discreta. Era um mamilo autêntico, como nenhum outro. Astolfo gostava que as meninas com quem saía lambessem seu mamilo, mas odiava que mordiscassem. Era capaz de terminar uma transa no meio se sentisse o cálcio de um dente incisivo brincando com sua baunilha.

Certa vez, na aula de educação sexual, quando estava na quinta série, aprendeu que mulheres tinham tesão nos mamilos quando tocados do jeito certo, e estes ficavam enrijecidos. Com o passar dos anos e a chegada da puberdade, Astolfo notou que suas glândulas mamárias ficaram doloridas, e a dos seus amigos também. Com isso, vieram os pêlos e muita dor – sim, homens têm dor nos mamilos na adolescência. Esses sintomas levaram sua preocupação ao médico, pois passou a achar que estava virando mulher. Malditas aulas de educação sexual, ele pensava. O médico esclareceu que era normal, e que o mamilo ficava frágil na puberdade, e muito sensível. Astolfo teve um insight, e decidiu, no banho, cutucar seu mamilo. Sentiu a bolinha, e viu que o médico tinha razão.

O que ele não imaginava é que, ainda no colégio, as brincadeiras de menino ginasial iriam ser sua totura escolar por anos, com aqueles beliscões no mamilo que doíam demais. Vinha um menino, apertava, torcia, puxava, e saía correndo, rindo e gritando “tetinhaaaaa!”. Ficou traumatizado o jovem Astolfo.

Estes episódios de sua infância não tinham nada a ver com sua opção sexual, já que gostava que as mulheres fizessem isso por ele quando se tornou mais velho, e odiava as mordidinhas. Foi também no banho que Astolfo passou os dedos ensaboados no mamilo e viu que eles também eram capazes de ficar eretos. E ele nunca esqueceu a primeira vez que uma mulher conseguiu a mesma façanha com a língua. Não com os dentes, com a língua.


Astolfo – A narina esquerda e o mistério da abelha negra

14 14UTC Março 14UTC 2009
Ilustração de Arthur d'Araujo

Ilustração de Arthur d'Araujo

Não era uma narina peluda, dessas que viram vilão com super poderes em uma gripe, mas sua largura permitia que escolhesse “limpar o salão” com quase qualquer dedo da mão. Era possível que, bem de pertinho, fossem confundidos os cravos alojados no contorno de seu orifício esquerdo com meras sardas, mas eles só podiam ser vistos caso houvesse grande disposição por parte do observador.  Do cantinho se iniciava uma marca de expressão que ia do nariz ao canto da boca e emoldurava seu bigode.

O contorno era bastante simétrico em relação à outra, e era possível notar que o círculo de pele, às vezes, no decorrer do percurso, era invadido por alguns pelos rebeldes vindos das profundezas, e que estes mesmos pelos iam mudando de tamanho e de formato para então quererem virar bigodes.

As famosas vibrissas, aqueles pelinhos do nariz que balançam ao vento e que inspirou Nícolas Brandão a criar o Hipertricose Nasale, eram de fato muito bem camufladas até virarem um verdadeiro e másculo buço. Um modesto, semi-aparado e falho bigodinho ajudava as pessoas a crerem que os pelos nasais de Astolfo não eram de todo mal. E ele sabia disso, por isso raro era ficar de cara limpa, barba feita.

Entretanto, apesar do fato de possuir uma narina ordinária, Astolfo cultivava uma grande cicatriz logo abaixo dela, e a culpa de tudo era de uma inocente abelhinha, dessas pretas e menorzinhas, mas que doem em você quando resolvem se suicidar e descarregam a ferroada. O problema de Astolfo nem era o ferrão, já que não era alérgico à picada de abelha, e também porque a abelha nem chegou a picá-lo.

Quando menino, Astolfo morava em uma casa com jardim, e costumava matar a sede de um beija-flor ou dois com um daqueles potinhos que se pendura na varanda. Acontece que, dentro deles, coloca-se água com açúcar, e essa mistura, vez ou outra, atraía algumas dessas pequenas abelhas, que ficavam sobrevoando o piso azulejado de sua varanda e os móveis da mesma.

Certa vez, ainda criança, Astolfo estava jogando Game Boy sentado na cadeira, quando a abelhinha resolveu descobrir se o interior de sua narina era quentinho. Jogou o mini-game no chão sem apertar o “pause” do jogo Tetris e se pôs a coçar o nariz freneticamente, enquanto assoava ar para que o inseto fosse expulso. Foi uma reação normal, qualquer um teria feito a mesma coisa.

O que ele não contava era com o rio de sangue que apareceu em sua mão esquerda quando tirou o dedo do nariz. Coçar o nariz fora um reflexo tão rápido que Astolfo se esquecia que, em seu dedo anelar, havia esquecido um anel que lhe dava super-poderes que fizera horas antes com uma argola de chaveiro.


Astolfo – A unha do dedão do pé esquerdo e as raivas do amolador da sua rua

12 12UTC Março 12UTC 2009

Ilustração de Arthur d'Araujo

Era canhoto da cintura para cima, e por existir confinado à desabilidade motora no nos membros inferiores esquerdos, não cultivava muitas histórias referentes a este lado menos utilizado. Não havia se quebrado, não havia sido roída, só algumas escoriações que serão exemplificadas mais a frente, e Astolfo pouco se lixava.

Era simplesmente uma unha comum, sem maiores deformidades, a não ser pelo declive – batizado pelo próprio de “complexo de planeta Terra na era medieval” – que fazia com que parecesse que um micróbio despencaria de um precipício caso “navegasse” até as suas fronteiras. Rosada, com manchinhas brancas que lembravam marolas e, segundo sua avó, realizariam seus desejos quando chegassem ao final de seu curso, a unha realmente, em um microscópio, lembrava um oceano.

Ele tinha algo de bravio, de falta de paciência. Toda vez que se acocorunhava para cortar suas unhas, fazia de um jeito para se ver livre daquela tarefa o mais breve possível. Por conta disso, vez ou outra, levava nas cutículas deformidades oriundas das lâminas afiadas de sua tesourinha de bico curvo. Astolfo não gostava de amolar a tesoura, muito embora o afiador de facas passasse todas as semanas em sua rua apitando sua gaita de brinquedo, como fazem alguns vendedores de bijú. Não adiantava: Astolfo sempre dispensava sua tesourinha no lixo comum do banheiro – ele não reciclava nada -, calçava os sapatos, abotoava qualquer coisa com botões que lhe vinha às mãos no armário e caminhava setenta e oito passos até a banca de jornal da esquina para comprar outra tesourinha de bico curvo.

Possuía uma fidelidade especial à marca Mundial, pois era a que sua mãe usava para cortar suas unhas quando era menino. E voltava indiferente à sua casa, olhando para o chão para não pisar nas cacas dos muitos cachorros de sua rua, com uma alça plástica na mão esquerda que sacolejava no ritmo de seus passos destros. Só notava que precisava de outra quando se punha a cortar a tal unha e sentia um beliscão.

Guardava a tesourinha no armário de três portas que se escondia por detrás do espelho, acima da pia, especificamente na porta da esquerda, dentro de um copinho plástico azul claro com alguns dizeres sobre um número de algum político. Era raro Astolfo notar a existência da unha de seu dedão do pé esquerdo no dia-a-dia. Reservava a ela uma especial indiferença, como se apará-la não fosse mais que sua obrigação.